Careca de expressão severa, sempre vestido de preto – “para o bem ou
para o mal, sou uma espécie de pós-gótico” – e pouco dado a sorrisos,
Mãe deixou Paraty como o maior fenômeno de popularidade instantânea da
história da Flip. Os 500 exemplares de a máquina... levados
para a cidade esgotaram-se no dia seguinte. Os eventos pós-festival de
que participou esta semana em São Paulo e no Rio de Janeiro tiveram casa
cheia. Suas duas editoras brasileiras já planejam novos lançamentos.
Nas ruas do Leblon, onde ficou hospedado no Rio, foi cumprimentado
calorosamente por desconhecidos.
Em entrevista ao GLOBO por e-mail, valter
hugo mãe fala sobre “o remorso de baltazar serapião”, que, numa
linguagem que remete ao português medieval, conta a história de uma
família de camponeses subjugada por um senhor feudal e conhecida no
vilarejo apenas pelo nome de sua vaca. Depois de se casar, o
personagem-título vê a mulher ser requisitada com cada vez mais
frequência pelo senhor e, por ciúmes, volta-se contra ela com uma
brutalidade semelhante àquela com a qual é tratado pelo proprietário das
terras. A ambiência medieval do romance é uma forma enviesada de falar
de questões ainda presentes como a violência contra as mulheres e a
exploração dos trabalhadores, sugere o autor: “Esta narrativa é uma
ostentação consciente do horror de sermos ainda humanos de baixa
categoria”, diz.
Também músico e artista plástico, valter hugo mãe fala ainda, na entrevista abaixo, sobre seus outros romances e sobre sua relação com a poesia. Morador orgulhoso de Vila do Conde, uma cidadezinha de 30 mil habitantes no norte de Portugal, o escritor se diz fascinado pelo universo provinciano e critica os políticos que conduziram seu país à profunda crise econômica e social em que se encontra hoje.
Também músico e artista plástico, valter hugo mãe fala ainda, na entrevista abaixo, sobre seus outros romances e sobre sua relação com a poesia. Morador orgulhoso de Vila do Conde, uma cidadezinha de 30 mil habitantes no norte de Portugal, o escritor se diz fascinado pelo universo provinciano e critica os políticos que conduziram seu país à profunda crise econômica e social em que se encontra hoje.
A trama de “o remorso de baltazar
serapião” poderia se passar em qualquer época, mas a linguagem
“antiquada” cria um efeito de que estamos na Idade Média. Que paralelos
se pode traçar entre aqueles tempos e os nossos?
É meu interesse aludir a uma Idade Média sobretudo mental. Os paralelismos podem ser todos — a ilusão contínua, o sonho perante quase o conto de fadas, o aliciante e inebriante do amor, a superstição, o preconceito. Infelizmente, continuamos a ser muito medievais e a tecnologia toda não impediu e não impedirá nunca que sejamos animais e que determinados instintos violentos venham ao de cima. Esta narrativa é uma ostentação consciente do horror de sermos ainda humanos de baixa categoria. Necessitamos urgentemente nos redimir do fato de provirmos dos animais, do fato de sermos, afinal, animais.
Um dos temas centrais do livro é a condição da mulher — todas as personagens femininas sofrem abusos e são de alguma forma subjugadas por homens. Como vê esse tema e por que escolheu essa forma de abordá-lo no romance?
Em cada livro meu amplio, como numa lupa, um assunto que me impressiona. Neste romance amplio a violência cometida sobre as mulheres e essa mudez a que foram submetidas historicamente. Praticamente tudo quanto sabemos das mulheres ao longo da história nos foi contado por homens. Se tivermos em conta o que as mulheres de hoje dão como certo do que dizem os homens de hoje sobre elas, mais fácil fica de entender que historicamente as mulheres foram emudecidas, como que secundarizadas de um modo machista que pretendia ver no homem a fonte da razão e do conhecimento. Hoje não estamos tão longe assim desta sociedade e destas convicções. As mulheres continuam ganhando menos e tendo menos oportunidades e a testosterona segue querendo manipulá-las e objetificá-las.
Você disse que em cada livro amplia um assunto que o impressiona. Quais são os temas “ampliados” em seus outros três romances?
Digo sempre que meus primeiros quatro romances completam um ciclo porque percorrem o período normal de uma vida: “o nosso reino” (2004) conta a história de um menino de 8 anos e reflete sobre a espiritualidade e a religiosidade obstinada; “o remorso de baltazar serapião” (2006) conta a história de um jovem de 19 anos e reflete sobre a forçada e violenta subjugação da mulher ao homem; “o apocalipse dos trabalhadores” (2008) fala de maria da graça, uma empregada de limpeza de 40 anos, e reflete sobre a precariedade das relações laborais e a necessidade de criar novos mecanismos de mérito social; “a máquina de fazer espanhóis” (2010) é a aventura de antónio silva, um senhor de 84 anos que ingressa num lar de idosos após a morte de sua esposa e nos ajuda a perceber como se enfrenta o declínio do corpo e se vive e aprende algo ainda na terceira idade. Com estas quatro personagens passei por uma experiência muito rica de pensamento sobre o que é o tempo da vida, desde criança a idoso, obrigando-me a trazer perto algumas das preocupações específicas de cada idade.
A família camponesa que protagoniza o livro é conhecida pelo nome de sua vaca, uma imagem forte de exploração dos trabalhadores. Por que retratar a família dessa maneira?
Destituir alguém do direito ao nome é anular a pessoa por completo. Transformá-la num animal indiferenciado. Quando era novo havia um rapaz deficiente mental a viver perto de minha casa e eu sempre perguntava o nome dele aos familiares e eles nunca disseram. Creio que julgavam estar a protegê-lo, para que ninguém soubesse quem era o tolo da rua. Eu pensei que era uma violência roubar o nome dele assim. Porque eu queria gostar dele e parecia não poder gostar dele de modo algum porque ele estava guardado para não ser ninguém na sociedade. Esse efeito ficou em mim e acredito que tenha estado muito na origem do que decido para a família do romance. Por outro lado, escolho exatamente uma vaca num jogo com um romance português intitulado “Nome de guerra”, do grande Almada Negreiros. Ele disse que os animais deviam ter o mesmo sobrenome das famílias a que pertenciam para que soubesse toda a gente a quem devolver, por exemplo uma vaca, se estivesse perdida no caminho. No meu livro fiz o contrário. A vaca deu o nome à família e ajudou a sublinhar esse percurso longo que falta fazer para uma humanidade mais efetiva.
Você cresceu no interior de Portugal e vive ainda hoje num vilarejo. Quais são as principais características desse universo “provinciano”, que está muito presente no romance, e o que o atrai nele?
Atraem-me muito as convicções populares, a oralidade das histórias, o modo como o povo inventa, acrescenta e se alimenta de verdades e fantasias misturadas. O Brasil tem isso também. Essa coisa de boca que já ninguém segura e vai criando quase sozinha uma história toda esdrúxula. Gosto das pessoas bem reais, sem máscaras, livres de um civismo demasiado. Vivo entre campos e mar, e posso encontrar agricultores e pescadores em cada extremidade dos meus braços estendidos. É muito bom assim. Vejo gente que produz, que sobrevive criando na terra e no mar. Falam sem vaidades, apenas o orgulho da sobrevivência. Isso é muito emocionante para mim.
Portugal atravessa um momento duro de crise econômica e social. Quais são suas impressões do país nesse momento?
Estamos metidos numa política cínica que nem à esquerda e nem à direita está a criar resultados animadores. Portugal, afinal, desperdiçou a ajuda europeia que entrou em milhões e milhões nos primeiros anos de União Europeia e agora ninguém se culpa e ninguém soluciona. É desolador perceber sobretudo como confiar acaba. Alguma ilusão de que políticos e economistas estariam a exercer cargos de boa fé vai toda abaixo. Hoje vejo o meu país com o mesmo amor de sempre, talvez maior pela necessidade de encontrar melhorias, mas também com muita frustração. Os portugueses são melhores do que seus políticos. É preciso que se faça saber que o povo português é muito mais boa gente do que querem fazer de nós.
Há um outro livro seu editado no Brasil, uma coletânea de poemas publicada em 2009 pela Oficina Raquel. Ainda escreve poesia? Sente que sua relação com esse gênero é diferente da sua relação com a prosa?
Escrevo poesia, sim. Mas aconteceu de a minha poesia se tornar mais extensa e narrativa. Ficou contaminada daquilo que seria mais característico da prosa. Contudo, recentemente tive a experiência de escrever um livro novo, “o inimigo cá dentro”, que vai incluído na nova edição da minha poesia completa, intitulada “contabilidade”, e senti que encontrei nos versos algo que não encontraria num romance. Foi muito significativo para mim voltar aos versos e descobrir-me outra vez naquela intensificação muito pessoal, confessional até, e seguir sem medo. Sou um escritor cada vez com menos medo de mim mesmo. Não ter medo da palavra é o único modo de amadurecer. Procuro na poesia esse enfoque íntimo, como numa conversa muito pessoal com um leitor imaginário que, para me ler, precisa de se tornar um grande amigo meu. Essa delicadeza parece reclamar uma aspiração à beleza, mas é feita de muita fealdade também. O sonho com a beleza acontece sempre mais no lugar onde ela não existe ou é difícil de reter.
Uma pergunta inevitável: por que as minúsculas? Acredita que elas podem em algum momento se tornar uma armadura para sua escrita (como algo “típico” de valter hugo mãe)?
As minúsculas vão ao encontro da oralidade e do modo como pensamos. Pretendem alcançar uma ideia de igualdade e certa aceleração na leitura. Não me levo nunca a sério demais ao ponto de achar que tenho razão, descobri o que está certo e vou ser assim a vida inteira. Não. Quero muito libertar-me também de mim próprio. Encerrei um ciclo de quatro romances escritos em minúsculas, e o meu novo livro, que estou agora mesmo a escrever, terá maiúsculas, convencionalmente, e mostrará como as opções estéticas não devem nunca superar a necessidade de procurar outras maneiras de abordarmos as questões. Estou muito interessado em renovar-me tanto quanto me seja possível.
É meu interesse aludir a uma Idade Média sobretudo mental. Os paralelismos podem ser todos — a ilusão contínua, o sonho perante quase o conto de fadas, o aliciante e inebriante do amor, a superstição, o preconceito. Infelizmente, continuamos a ser muito medievais e a tecnologia toda não impediu e não impedirá nunca que sejamos animais e que determinados instintos violentos venham ao de cima. Esta narrativa é uma ostentação consciente do horror de sermos ainda humanos de baixa categoria. Necessitamos urgentemente nos redimir do fato de provirmos dos animais, do fato de sermos, afinal, animais.
Um dos temas centrais do livro é a condição da mulher — todas as personagens femininas sofrem abusos e são de alguma forma subjugadas por homens. Como vê esse tema e por que escolheu essa forma de abordá-lo no romance?
Em cada livro meu amplio, como numa lupa, um assunto que me impressiona. Neste romance amplio a violência cometida sobre as mulheres e essa mudez a que foram submetidas historicamente. Praticamente tudo quanto sabemos das mulheres ao longo da história nos foi contado por homens. Se tivermos em conta o que as mulheres de hoje dão como certo do que dizem os homens de hoje sobre elas, mais fácil fica de entender que historicamente as mulheres foram emudecidas, como que secundarizadas de um modo machista que pretendia ver no homem a fonte da razão e do conhecimento. Hoje não estamos tão longe assim desta sociedade e destas convicções. As mulheres continuam ganhando menos e tendo menos oportunidades e a testosterona segue querendo manipulá-las e objetificá-las.
Você disse que em cada livro amplia um assunto que o impressiona. Quais são os temas “ampliados” em seus outros três romances?
Digo sempre que meus primeiros quatro romances completam um ciclo porque percorrem o período normal de uma vida: “o nosso reino” (2004) conta a história de um menino de 8 anos e reflete sobre a espiritualidade e a religiosidade obstinada; “o remorso de baltazar serapião” (2006) conta a história de um jovem de 19 anos e reflete sobre a forçada e violenta subjugação da mulher ao homem; “o apocalipse dos trabalhadores” (2008) fala de maria da graça, uma empregada de limpeza de 40 anos, e reflete sobre a precariedade das relações laborais e a necessidade de criar novos mecanismos de mérito social; “a máquina de fazer espanhóis” (2010) é a aventura de antónio silva, um senhor de 84 anos que ingressa num lar de idosos após a morte de sua esposa e nos ajuda a perceber como se enfrenta o declínio do corpo e se vive e aprende algo ainda na terceira idade. Com estas quatro personagens passei por uma experiência muito rica de pensamento sobre o que é o tempo da vida, desde criança a idoso, obrigando-me a trazer perto algumas das preocupações específicas de cada idade.
A família camponesa que protagoniza o livro é conhecida pelo nome de sua vaca, uma imagem forte de exploração dos trabalhadores. Por que retratar a família dessa maneira?
Destituir alguém do direito ao nome é anular a pessoa por completo. Transformá-la num animal indiferenciado. Quando era novo havia um rapaz deficiente mental a viver perto de minha casa e eu sempre perguntava o nome dele aos familiares e eles nunca disseram. Creio que julgavam estar a protegê-lo, para que ninguém soubesse quem era o tolo da rua. Eu pensei que era uma violência roubar o nome dele assim. Porque eu queria gostar dele e parecia não poder gostar dele de modo algum porque ele estava guardado para não ser ninguém na sociedade. Esse efeito ficou em mim e acredito que tenha estado muito na origem do que decido para a família do romance. Por outro lado, escolho exatamente uma vaca num jogo com um romance português intitulado “Nome de guerra”, do grande Almada Negreiros. Ele disse que os animais deviam ter o mesmo sobrenome das famílias a que pertenciam para que soubesse toda a gente a quem devolver, por exemplo uma vaca, se estivesse perdida no caminho. No meu livro fiz o contrário. A vaca deu o nome à família e ajudou a sublinhar esse percurso longo que falta fazer para uma humanidade mais efetiva.
Você cresceu no interior de Portugal e vive ainda hoje num vilarejo. Quais são as principais características desse universo “provinciano”, que está muito presente no romance, e o que o atrai nele?
Atraem-me muito as convicções populares, a oralidade das histórias, o modo como o povo inventa, acrescenta e se alimenta de verdades e fantasias misturadas. O Brasil tem isso também. Essa coisa de boca que já ninguém segura e vai criando quase sozinha uma história toda esdrúxula. Gosto das pessoas bem reais, sem máscaras, livres de um civismo demasiado. Vivo entre campos e mar, e posso encontrar agricultores e pescadores em cada extremidade dos meus braços estendidos. É muito bom assim. Vejo gente que produz, que sobrevive criando na terra e no mar. Falam sem vaidades, apenas o orgulho da sobrevivência. Isso é muito emocionante para mim.
Portugal atravessa um momento duro de crise econômica e social. Quais são suas impressões do país nesse momento?
Estamos metidos numa política cínica que nem à esquerda e nem à direita está a criar resultados animadores. Portugal, afinal, desperdiçou a ajuda europeia que entrou em milhões e milhões nos primeiros anos de União Europeia e agora ninguém se culpa e ninguém soluciona. É desolador perceber sobretudo como confiar acaba. Alguma ilusão de que políticos e economistas estariam a exercer cargos de boa fé vai toda abaixo. Hoje vejo o meu país com o mesmo amor de sempre, talvez maior pela necessidade de encontrar melhorias, mas também com muita frustração. Os portugueses são melhores do que seus políticos. É preciso que se faça saber que o povo português é muito mais boa gente do que querem fazer de nós.
Há um outro livro seu editado no Brasil, uma coletânea de poemas publicada em 2009 pela Oficina Raquel. Ainda escreve poesia? Sente que sua relação com esse gênero é diferente da sua relação com a prosa?
Escrevo poesia, sim. Mas aconteceu de a minha poesia se tornar mais extensa e narrativa. Ficou contaminada daquilo que seria mais característico da prosa. Contudo, recentemente tive a experiência de escrever um livro novo, “o inimigo cá dentro”, que vai incluído na nova edição da minha poesia completa, intitulada “contabilidade”, e senti que encontrei nos versos algo que não encontraria num romance. Foi muito significativo para mim voltar aos versos e descobrir-me outra vez naquela intensificação muito pessoal, confessional até, e seguir sem medo. Sou um escritor cada vez com menos medo de mim mesmo. Não ter medo da palavra é o único modo de amadurecer. Procuro na poesia esse enfoque íntimo, como numa conversa muito pessoal com um leitor imaginário que, para me ler, precisa de se tornar um grande amigo meu. Essa delicadeza parece reclamar uma aspiração à beleza, mas é feita de muita fealdade também. O sonho com a beleza acontece sempre mais no lugar onde ela não existe ou é difícil de reter.
Uma pergunta inevitável: por que as minúsculas? Acredita que elas podem em algum momento se tornar uma armadura para sua escrita (como algo “típico” de valter hugo mãe)?
As minúsculas vão ao encontro da oralidade e do modo como pensamos. Pretendem alcançar uma ideia de igualdade e certa aceleração na leitura. Não me levo nunca a sério demais ao ponto de achar que tenho razão, descobri o que está certo e vou ser assim a vida inteira. Não. Quero muito libertar-me também de mim próprio. Encerrei um ciclo de quatro romances escritos em minúsculas, e o meu novo livro, que estou agora mesmo a escrever, terá maiúsculas, convencionalmente, e mostrará como as opções estéticas não devem nunca superar a necessidade de procurar outras maneiras de abordarmos as questões. Estou muito interessado em renovar-me tanto quanto me seja possível.
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